Lisboa
Gabinete Curiosidades Karnart [Av. Índia 168]
04 a 28 de Junho de 2025
Quarta-feira a Sábado, 21h
M/6 | LOTAÇÃO 13 pessoas | DURAÇÃO _ 60′ | PREÇÁRIO _ Madrinhas, Padrinhos e Amigos da KT €0 / Bilhete de Cortesia €2 (nominal) e €3 (acompanhante) / Bilhete-Desconto (<25, >65, profissionais e estudantes de Artes, Cartão Belém) €5 / Bilhete inteiro €7 | PAGAMENTO presencial _ MBWay ou dinheiro | BILHETEIRA em-linha aqui
O ARMÁRIO é uma peça de Perfinst contemplativo, na linha dos passados OPNI V [2006) e CAM [2012], criada a partir de elementos vegetais da colecção de Naturalia Vegetalia do GCK [Gabinete Curiosidades Karnart]. No segundo semestre de 2024, foram adquiridos pela Karnart em segunda mão, num horto da zona saloia de Lisboa, dois grandes armários iguais em madeira e vidro que foram intervencionados do ponto de vista de iluminação. Esses dois gémeos de imponente sobriedade tornaram-se um só para acolherem, ao início de 2025, todo um conjunto de objectos botânicos, também antropomórficos, ditos “com alma”, que foram instalados criando narrativas condensadas e se transformaram em potenciais Perfinst, à semelhança do que acontece com as vitrines de Naturalia Animalia, uns quase berçários do conceito. Cada uma das treze instalações geradas é amadrinhada por uma personalidade artística que com a Karnart tenha trabalhado ao longo dos anos e que estará presente num dos dias de carreira do espectáculo, para fechar a sua escolha, a intitular e sobre ela escrever umas palavras; procedimento idêntico acontecerá com dita/os damas-de-honra e pajens-de-honra, seleccionados entre artistas e colaboradores de gerações subsequentes. O ARMÁRIO preverá que o público seja de forma contextualizada acolhido na sala onde esse útero gigante está colocado, em ambiente solene, sacro, ritualístico, e ali fique durante o tempo que lhe aprouver, podendo e devendo, cada um dos visitantes, verter sensações, ideias, angústias, opiniões em cadernos que sobre mesas de xisto e lioz estejam disponíveis. Esses testemunhos serão recolhidos e, adidos aos das Madrinhas, damas-de-honra e pajens-de-honra, inseridos na página em linha do projecto no sítio Internet da Karnart, em relação directa com as fotografias da instalação a que dizem respeito. Ao final da carreira o que começou por ser um projecto performativo-plástico terá evoluído para um objecto digital, firmando a prossecução de investigação do conceito de Perfinst que a Karnart tão afincadamente forja.
conceito, direcção, anfitrião | Luís Castro |
assessoria à criação | Vel Z |
Graça Fonseca | |
assessoria à instalação e dramaturgia | Valentina Parravicini |
assistência de produção | Lucas Wolfson |
fotografias | Alípio Padilha |
iluminação armário | João Bertrand Cabral |
Dedicatória | Adília Xavier |
Madrinhas | Ana Bustorff |
Bibi Perestrelo | |
Catarina Vaz Pinto | |
Fátima Vaz | |
Fernanda Neves | |
Filipa Reis | |
Graça Fonseca | |
Isabel Medina | |
Isabel Ruth | |
Luísa Brandão | |
Maria João Brilhante | |
Maria João Ribeiro | |
Noémia Fernandes | |
Olga Roriz | |
Paula Só | |
Suzana Borges | |
Teresa Campos | |
Teresa Huertas | |
Teresa Mónica | |
Damas de Honra | Ana Magalhães |
Eunice Gonçalves Duarte | |
Matilde Teixeira | |
Mónica Garcez | |
Xana Lagusi | |
Pajem de Honra | Miguel Pereira |
A1 / TEMPESTADE
madrinha NOÉMIA FERNANDES
dama de honra MÓNICA GARCEZ
NOÉMIA FERNANDES [2025.06.27] _ madrinha A1 | SILÊNCIO _ Na luz trémula do fim do dia, os campos de algodão no Outono, brilham como lantejoulas na vasta paisagem – envoltas em neblina as ruínas dos templos antigos apareciam como fantasmas, contrastando com a delicadeza salpicada dos campos de algodão. / Toda a região parecia abandonada naquela hora do crepúsculo, não se ouviam pássaros, nem grilos, nem o ladrar dos cães ou o cantar dos galos. / O silêncio invadia naquele momento todo o lugar, só o agradável cheiro das plantas secas nos acolhia. / Nessa altura senti que o meu espírito de viajante tinha encontrado a sua paz. / E fechei docemente os olhos.
MÓNICA GARCEZ [2025.06.28] _ dama de honra A1 | Quando a leveza é raiz. / A raiz o ventre. / Sopro. Em cada sopro soltam-se… levemente… tornam-se fragmentos de um só corpo que (de) tanto querer ser mundo se desmembra. / Não perde a cor. Nem o cheiro. Nem a essência. Apenas se desmultiplica na sua vida de desprendimento da raiz. Cresce para além do seu tronco, foge do seu pé “Para que são precisos pés quando temos asas para voar?”. A raiz alimentada nos sulcos dos caminhos. Os caminhos que se apontam para onde o coração os levar. O coração. Sempre o coração. O coração pedra. Papel ou tesoura? O coração sempre maior que o peito, o corpo, o mundo… o coração sonho de algodão… o sonho quase acabado… como o amor… que numa barca vi passar. / O tronco segura, mas não prende. Lindo. Belo. Único. O espaço memória. O cheiro. O toque. Que nos toca a todos. Gosto de me sentir algodão neste dia tão quente. Tudo respira e vive tão docemente que me esqueço do metal dos dias. Sempre tocada pela memória. / Muito para além do armário. Sempre será a memória de mundos que se revezam aos nossos olhos
SIMONA ACCATTATIS [2025.06.11] _ Che questi bianchi fiocchi possano alleggerire i tuoi pensieri. Che il bianco colore ti porti un po’ di pace. [+ desenho]
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ Um gato à janela / voga sob a Lua
MATHILDE NEVES [2025.06.20] _ A instalação transmite uma aparente calma, serenidade. Os botões de algodão intercalados com ramos. A que árvores terão pertencido? Que histórias viveram? Quantos séculos, quantas gerações viram crescer e morrer? A parte à direita faz lembrar uma loba a uivar junto à campa de alguém desconhecido. Terá sido um parente, um amigo? Ou uma coincidência? Talvez seja apenas instinto, a loba a uivar numa colina, onde, por acaso, se encontra uma campa. Os botões de algodão cruzados trazem à memória a capa do EP “One”, da banda anónima Sleep Token. O início de uma viagem épica. O prelúdio. Tanto a instalação como a capa do EP e a própria música transmitem uma dualidade entre uma aparente serenidade e um presságio, a presença da morte. Um ciclo, no fundo uma mistura de todos os tempos, remotos, recentes ou vindouros. A instalação é uma lembrança do que já aconteceu e do que poderá acontecer. Como a calma antes da tempestade. / A vida a nascer da morte… / Não da morte. A aceitá-la, talvez. / Também há algo nipônico na instalação: os ramos de algodão fazem lembrar os ramos de sakura, a flor de cerejeira. Consigo imaginar a paisagem. As florestas de coníferas. Os kabutomushi a treparem às árvores. Os templos budistas. A dualidade de um país guerreiro, entre a luta e a natureza.
TERESA CAMPOS [2025.06.21] _ “AS BOLINHAS BRANCAS” / Olhei tornei a olhar e senti vontade de me roçar de acariciar com as mãos de estar sentada à beira do precipício e de atirar com elas ao nada.
INÊS JESUS [2025.06.21] _ Algodão. Campos de algodão. Ao olhar fui transportada para os campos de algodão onde tantos foram escravizados, onde tantas lágrimas foram derramadas. / Campos de tristeza, mas muitos conseguiam por vezes nos seus lamentos tirar um pouco de “alegria”. / Escravos que hoje infelizmente com outra “roupagem” continuam a existir. E que muitas vezes fechamos os olhos fingindo que não existe. Campos de algodão para onde me levaram!!! / Tristeza para uns alegria para outros, pobreza de uns riqueza de outros. Enfim o mundo não muda o mundo piora. / Uma planta que nos dá tanto, e tanto me fez sentir neste breve olhar.
MARISA MARQUES [2025.06.21] _ Koalas vivem livres no seu habitat, uma harmonia predomina, uma felicidade os invade. São família, são amor.
CARLA PAOLIELLO [2025.06.25] _ Vejo à distância, escrevo de longe. Faço isso porque o algodão falou comigo. Mesmo de longe, senti, toquei-o e fui tocada / deixei-me afetar pela sua maciez, pela dureza da semente escondida, pelo cheiro de chuva e o ar laranja da terra batida. Senti a infância. Tornei-me criança e na minha inocência e espanto me imaginei pequena / minúscula diante deles. Poderia me transformar em um chumaço de algodão? Poderia virar um fio fofo, branco? Se assim fosse possível, queria sentir a mão a me abrir, a me bater, a me puxar, a me fiar, a me tecer. De fio à trama, de trama à tecido. Estaria unida a outros pela tração, pelo nó, pela costura, do único ao múltiplo, da linha ao plano.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “Os algodões japoneses” / De onde vem? Macia sujeira pousada sobre a seca. [+ desenho]
A6 / RUPTURA
madrinha GRAÇA FONSECA
GRAÇA FONSECA [2025.06.19] _ madrinha A6 | VAI DEPRESSA E CAIXA ABERTA _ Era uma vez um peixe, com uma grande cabeça, grande em dimensões e também grande em capacidade de descoberta, pensamento e agilidade. Este peixe tinha também um grande nariz, em forma de espada com pequenos dentes, inseridos lateralmente. / Era como se tivesse uma arma, poderosa na cara mas também lhe tirava agilidade, destreza, era tão comprida que por vezes se tornava difícil navegar muito tempo. / Na comunidade onde vivia chamavam-lhe o “vai depressa”, andava sempre não a correr, mas quase. Tinha a sensação que o tempo passava rápido e ele não queria perder nadinha do que se passava em volta da pequena área onde todos viviam. / O “vai depressa” numa das suas deambulações para lá da zona que já conhecia, encontrou outro peixe de quem se tornou amigo, tão amigo que juntos decidiram ir explorar, aventurar-se para outras águas onde nunca nenhum deles tinha estado. / Era um lugar gigantesco, tão grande, tão grande que parecia não ter fim, mas era também fascinante, repleto de entidades, seres, coisas, que nunca tinham visto, nem sabiam de onde teriam vindo, tão estranhas, curiosas e lindas criaturas. / Para não se perderem um do outro, o “vai depressa” resolveu partilhar o seu grande nariz, em forma de espada, com o seu amigo a quem pôs o nome de “caixa aberta”. / E lá foram os dois, ligados pela espada com pequenos dentes laterais, pelo mundo da água imensa ora azul, ora verde, ora violeta, ora amarela, viram tantas cores que decidiram escolher um sítio onde tudo era cor de laranja. / Comiam algas alaranjadas e tornaram-se também dessa mesma cor. / Nunca mais saíram daquele lugar, maravilhoso da cor do sol poente.
JOSÉ MENDES [2025.06.05] _ Oh! Serra dos Pinheiros / Vejam os sobreiros que se perdiam de vista / em troca das “searas de cristal” dos vorazes tubarões.
OZGE TOPCU [2025.06.11] _ It is a depiction of the attack, maybe a murder mystery. I see the weapon going top of the head of a man and divides the head to two pieces. Can be the description of a war time memory, or a secret of an incident at the boat. I assume whole azulejos description can be about secretly revealing of a mystery, showing underwater can symbolize seeing the hidden facts from a correct perspective.
JULIEN PAGNAC [2025.06.13] _ Avoir le bec dans l’eau / To be in between / Life is about choice / Choices can bring you to danger or happiness / Here, I see more a danger approaching / Like the main wood is going to be eaten
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Utensílios de caça e armazenamento da natureza; seres vivos e árvores.
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ O laminar das máscaras / Também dói / A boca grita para o interior / do corpo e fere / O que se expande / Cresce uma entre-aberta.
TERESA CAMPOS [2025.06.21] _ “FORÇA” | Olhei para aquele objeto cheio de picos (cacto) e a frase apareceu temos de lutar pela nossa democracia.
RUI OLAVO [2025.06.21] _ “O beijo” / A casca e o tronco são uma simbiose perfeita. Um/a protege a outro/a e ele alimenta-a e fá-la florir. / A atração entre ambos é inevitável, e as suas bocas unem-se num beijo longo e ternurento. A paixão é intensa e o encanto é mútuo. A fisicalidade é avassaladora e inebriante: o toque, o cheiro, o sabor, o calor, a textura, criam um universo único, uma outra dimensão. / Quando a paixão é vencida pelo cansaço o racional toma conta deles, o diálogo que os parece unir também os dilacera. / As bocas que os uniram, agora provocam dor, não deixando que se desapeguem, também não deixam que se unam. O diálogo que os une, não os deixa aproximar e a força que os une apenas os magoa cada vez mais. / Mas não conseguem deixar de ser a casca e o tronco e o resto está a mais.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “Dente em diagonal” / Morreu e ali ficou / A arcada dentária revela a identidade / Pobre animal / Morto em diagonal. [+ desenho]
ZITA LOPES [2025.06.25] _ A máscara que descola do tronco e deixa à vista o vazio interior. / O molde de um rosto em agonia carrega consigo a expressão de horror e sofrimento. / Entre o vácuo e o molde sobrevive uma serra afiada com dentes aguçados. Aguarda a sua próxima missão. / À máscara que outrora dissimulou o seu interior, resta esvair-se em pó, será desfeita, prensada e reciclada. Terá uma nova vida como rolha de garrafa, vendida numa qualquer grande superfície, igual a tantas outras.
MATILDE TEIXEIRA [2025.06.27] _ Chamamos-lhe a morte da dicotomia. Assistimos à queda da emoção. À queda do rosto. À queda do teatro. À queda de uma qualquer ilusão de esboçar um sorriso. O sorriso que nunca foi desconstruído, precisamente por nunca ter existido. O sorriso sempre foi uma cópia, da cópia, da cópia da sua própria imagem moldada na máscara do teatro. Assistimos hoje à queda dessa máscara que ainda nos fazia acreditar na expressividade do nosso rosto. Também a máscara cedeu à sensação do maxilar dolorido, resignando-se à neutralidade. À espera desse acontecimento sorridente, ao qual chamamos Godot. A felicidade como construção, que se confunde com uma qualquer elevação de músculos internos, e que tem como resultado uma imagem à qual chamamos sorriso, sem nunca sorrir ao pensar nele próprio. A régua espinhosa intervém para dar um fim às ilusões, às construções. Se o sorriso não tiver os centímetros suficientes para ser considerado credível é, automaticamente, condenado à morte. Morte por espinhamento ou espelhamento. O próprio reflexo do sorriso revela-lhe a ausência de verdade. Assistimos à reencarnação da máscara do sorriso ou do sorriso mascarado. Antes de morrer optou por se acasalar com a dor. Com a máscara da dor. Tiveram um filho chamado Neutralidade que, certamente, irá perdurar até ao fim da espécie humana. Um fim como um tempo de dor que terá de ser mascarada através da neutralidade. Nesse fim, o teatro suicidar-se-á e voltará a nascer antes ainda de ter morrido, pois a condenação à morte, nunca lhe será concedida.
ISABEL FREIRE [2025.06.27] _ Rocha, ninho de águia, desfiladeiro, tempestade seca, vale ao fundo, profundo, extenso, sem fim, sem detalhe, e ali no rochedo coberto de musgos, dois ovos, esquecidos, deixados no frio, sem vida, há dias, crescendo para não chegarem a nascer, esperando que a ave regresse, porque não regressa? Porque não regressa? Porque não regressa? Porque não regressa? Por que não? Não? Não regressa.
B2 / VIDA
madrinhas ISABEL MEDINA, TERESA HUERTAS
dama de honra EUNICE GONÇALVES DUARTE
ISABEL MEDINA [2025.06.12] _ madrinha B2 | CONEXÃO CÉU TERRA _ Somos muito mais do que sabemos. / Somos raízes na terra e ramos no céu. / Conectados em entrelaçamentos de energia amorosa. / Quanto mais nos elevamos, menos densos nos tornamos. Ramagens firmes e doces dissolvendo-se em energia pura. / Mas na terra que nos acolhe lançamos raízes fortes e crescemos rijos, em troncos firmes e erectos. E as raízes conversam, entreajudam-se, numa linguagem só delas. Conectados, sempre. Somos. / Envolve-nos o ar, alimenta-nos a água e a terra, somos fogo por dentro. / É o amor que nos une esta vida entre o céu e a terra. / Onde nos perdemos? / Quando perdemos a conexão?
TERESA HUERTAS [2025.06.18] _ madrinha B2 | A DANÇA DE CRONOS [ou “FUI RAIZ, CAULE, FOLHA, FLOR E VENTO” + desenhos diversos] _ Fui raiz, caule, folha, flor, vento. / METAMORFOSE. / DANÇA DE CRONOS. / EM TORNO DE CORPOS INVISÍVEIS. / Poderosa raiz, calcificação do Vivo em movimento. Fui atraída pela Presença que dela emana. Pelo ondulante desenho das formas. Pelo cruzamento de densidade e de leveza, pela força e fragilidade que nela coabitam. / Sinto a presença dos elementos – terra, água, ar. / A natureza no seu esplendor. / Comunicámos.
EUNICE GONÇALVES DUARTE [2025.06.06] _ dama de honra B2 | Quando um cabelo encontra outro cabelo, se estiver ao vento, ou se houver humidade, haverá de haver um encontro entre cabelos. O encontro pode não ser pacífico. Se for da mesma pessoa, por estarem tão próximos, é certo que haverá conflito. / – Se os dois caírem para o mesmo lado, ficarem lado a lado, não é certo que o conflito não aconteça, pois bastará a um terceiro cabelo lembrar-se de se soltar, vem por aí abaixo e encontra os outros. Há sarilhos. Dois cabelos lado a lado ainda voam livres, mas com um terceiro hão-de se entrelaçar, rebolar juntos, um puxará o outro e dar-se-á a misteriosa complexidade de se juntarem inexplicavelmente (são apenas cabelos) e criarem uma força de resistência, difícil de quebrar. / – Se um cabelo quer chegar ao céu, viaja sozinho. Não pode ter amarras. Se se deixar levar com as pontas de algum vizinho, é agarrado. As pontas dos cabelos são tentáculos; agarram tudo o que lhes está nas proximidades. Por lá (nos cabelos) já encontrei outros fios a passarem-se por cabelos; esses assim que são descobertos são engolidos e amassados cabelo contra cabelo, sendo apenas libertado por uma valente tesourada, lápis, canetas, paus, pedras, dentes de pentes, pequenos animais, insectos, pastilha elástica, gelado e outras comidas como pipocas e batatas fritas.
IRENE RIBEIRO [2025.06.11] _ E as raízes elevam-se, não se detêm, alongando-se nas suas formas. No entrelaçar que figuras formam? Na base uma escultura disforme? De onde brotam os galhos mais estreitos? Até onde se estendem retorcidos nas suas extremidades? Até quando imobilizados neste presente contínuo? / Sempre adorei raízes, troncos, galhos. Sempre foi o que espalhei pela casa em vez de plantas, flores, folhas… sempre foram os meus enfeites festivos… juntamente com as pedras… diferentes tamanhos em múltiplas formas… assim estão, tal como os apanhei e recolhi, em florestas, matas e nas terras da aldeia da minha mãe e, também no pinhal e nas hortas herdadas pela minha mãe. / Estas raízes desprovidas de outros elementos existem e bastam-se a si mesmas, expandem-se até onde podem chegar. Desta cor indefinível entre a terra e o ar, o interior e o exterior, brotam possibilidades infinitas de formas e, a luz que nela incide, ainda a torna mais na escultura que quero preservar, mesmo longe de aqui.
IVAN FERNANDES [2025.06.14] _ Medusa, AC/DC ou alguma capa de disco de banda de heavy metal. / É curioso como algumas árvores são capazes de tocar o céu e nossa imaginação! / Há vida na natureza morta? / Observar e procurar o que dizer, como tentando criar uma conexão com algo que não me é habitual. Qualquer sensação de pensar em ensinar um tigre a voar com suas próprias patas e acreditar que isto possa ser real.
JORGE MARTINS ROSA [2025.06.14] _ Árvore. / Vento. / Rio. / Areia. / Serpente. / Espinho. / Artéria – Arteríola – Capilar / Heraclito.
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Árvore de ramos multidireccionados que se servem de ratoeira para diversas espécies de seres vivos. / Também uma árvore que se serpenteia para contornar os obstáculos que lhe surgem pelo caminho.
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ Lembra-me / o labirinto de / um sonho ainda possível / Um silêncio / Um erro / Uma imprecisão
INÊS MARTINS [2025.06.20] _ Fumo / Crescimento / Agregação da vida já sem vida ao ambiente / expansão / o vislumbre do que pode acontecer sem barreiras / ao contrário da instalação abaixo, pequena e adaptada às barreiras
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “O bonsai que morreu” / Seco, morto, austero, / Morreu e permanece / Áspero e ruidoso / Forte e irrequieto em busca / de espaço. [+ desenho]
GILES TEIXEIRA [2025.06.25] _ “Dragon” [desenho]
MARIA JOSÉ VERÍSSIMO [2025.06.26] _ Um deserto, troncos secos, gastos pelo vento mas resistentes ao passar dos anos como se fosse corpos envelhecidos no final da linha de vida, maneados pela velhice e pelo abandono da sociedade. Esqueletos andantes onde os órgãos internos teimam e lutam pela sua sobrevivência e assim manter-se em funcionamento daquele corpo sujo pelos anos. O desenho é assim, também pode florir pois os troncos são sinal que um dia ali existiu vida e reflecte a luta pela sobrevivência em terreno hostil.
PEDRO MENDES [2025.06.26] _ “DA COPA À RAÍZ” / A primeira imagem que me veio foi dos filmes de Tim Burton, algo negros, algo desoladores, quase pós-apocalípticos. Mas ao mesmo tempo belos. Esta imagem correspondente à parte superior do objeto, remete-me para uma grande árvore em fóssil, ainda assim ondulante ao sabor do vento. A parte inferior entendo como uma vasta e funda raiz, que me convoca a imagem de um dragão, e que sustenta a árvore. Para que a beleza se mostre, há que ter raízes fortes.
FILIPA OLIVEIRA [2025.06.26] _ Não conseguimos olhar sem ver formas. / Não conseguimos olhar sem entender, sem procurar significados / Não conseguimos olhar sem classificar, sem pôr em gavetas, armários, estantes, livros. / Não conseguimos olhar sem nomear. Essa ciência de dar nomes, essa ciência narcísica e de dominadora. / Árvore – Fumo / Árvore – Fogo / Fumo – Bailarino / Fogo – Petrificado / Génio da lâmpada com mil braços / Braços de centopeia sem cabeça / Não conseguimos olhar sem tentar nomear / Não conseguimos olhar
ANA CHIOTE [2025.06.26] _ Não olhes para mim, tens os olhos raiados / isso dói e faz com que me perca / não vou entrar por essas veias / apesar dessa beleza assustadora / é por isso que tenho o coração acelerado / as restantes molduras acabam por me acalmar / a luz, as sombras, as formas… / e agora, os sons metálicos, e o cheiro a incenso, distraíram-me / … vou respirando muito devagar e não quero fazer barulho…
RITA MARTINS [2025.06.26] _ Deixo que o objeto me escolha. / Já está. / É uno. Total. É mistério. / Tenho vontade de interrogá-lo. // Como chegaste a essa complexidade, a essa morte complexa, em ondas, curvas, espinhos? / Inspiras revolta e beleza. Laivos de atrocidade nesses ramos retorcidos. Inspiras temor. / Pareces raiz. Estiveste enterrada no chão? / O chão comia-te. // O que eras em vida? / O que eras antes dessa secura, dessa raiva? / Tens tantas linhas onduladas. Mas és violenta como um animal carnívoro. És osso. / Planta-animal-esgotada-esgotante-imperiosa-rainha do armário-feiticeira branca-desgrenhada. // Vou deixar-te. Vais ficar aí, especada, orgulhosa. / Proíbo-te que entres nos meus sonhos. Vais ser memória petrificada. // Não aguento que olhes para mim; / Muda. / Insistente. [+ desenho]
FRANCISCO CASTRO [2025.06.27] _ O que nos corre nas veias tem a cor que nós quisermos. A estrutura neuronal dos nossos cérebros segue a direção que quisermos, é tudo livre. Até na fragilidade das veias ou do cérebro, e mesmo quando o tempo ajuda. No fil rouge da vida, só faz sentido ser único, ser livre. Do princípio até ao fim.
MANUELA MARQUES [2025.06.27] _ Consagro linhas, o movimento da terra. / Acordo diariamente sem dormir, dispenso. / Observo o mundo e continuo sem direção, à medida que avanço fortaleço as minhas-nossas fundações. / Sigo, persigo um hercúleo caminho mas suspendo constantemente por ocasião indeterminada, aproveito e respiro como um pulmão descompassado. / Surpreendo-me a cada encontro, deformo. / Respiro e contorço-me para morrer devagar enquanto esgoto a vida. / Há dias que tenho esperança e sinto-me florescer. Consigo brotar folhagem verde que cai no momento em que toca um olhar humano. É um oráculo que reitera a condição da Humanidade. / Permaneço em movimento mesmo quando imperceptível, porque respiro.
ANÁLIA GOMES [2025.06.28] _ Difícil escolher sobre qual instalação escrever o que me suscita, de tal modo impressivas são todas elas. Todo o conjunto é de uma grande beleza, diria mesmo delicadeza, embora algumas também transmitam força, resistência… / Tentando: / O esqueleto do que foi uma árvore, ou parte de… ? Ou serão raízes? Em todo o caso, um corpo retorcido procurando a luz
LIA FREITAS [2025.06.28] _ Adriática viajava só. / O caminho era tortuoso. / Havia rios e montes, vales e estradas. / O que hoje parecia longe, amanhã já estava perto. / A sua voz era um clarão. Um clarão de chamamento. / Ao longo do seu caminho, Adriática compreendeu que já tinha tudo o que precisava. / Respirou. Sentiu a abundância a comer-lhe nas veias. Já não havia que procurar nada pois todas as suas caminhadas, eram para dentro de si mesma. / As rugas nas suas mãos traçavam o seu caminho. As lutas que travava, eram consigo mesma. / Estava tudo no seu lugar. Estava tudo certo. / Em breve o rio voltava a encher e a formar os canais. / Adriática deixou-se estar. No silêncio da imensidão ouviu uma voz. Vinha de dentro. / Os ecos de si mesma vibravam a energia do amor. Estava tudo certo. / Fluir para dentro é ir ao encontro de si mesmo. Cada sopro, cada linha de água no rio, era uma passagem para mais perto de si. / “Adriática, está tudo certo. / A voz que te chama, está dentro de ti. / Ela ama-te e diz-te que o sangue que corre nas tuas veias é feito do rio por onde navegas. / Está tudo certo.” / E Adriática deixou-se ficar.
B3 / BOATO
madrinha PAULA SÓ
PAULA SÓ [2025.06.25] _ madrinha B3 | O QUINTAL _ Não quero ter saudades do quintal, nem das secas, nem da tia Aninhas nem das quintas, a estrada que levava até à vila, a mata, por onde eu me embrenhava às vezes nas manhãs molhadas de orvalho, ou no final da tarde me sentava nas folhas secas que restolhavam debaixo de mim, e o sol coado, dourado, trespassava-me a brincar, em feixes de luz morninha. Agora não tenho nada disso, não quero ter saudades. Quero-te a ti, para que me digas sempre o que isso foi, enquanto continuar a ser para ti. Depois, eu sei que um dia voltarás a tocar-me com todo o teu amôr, irás cobrir-me, deitar-te sobre mim a pouco e pouco, suavemente, e devagar, amadamente, serás o pó sobre o meu ser adormecido.
JORGE MARTINS ROSA [2025.06.14] _ Só importa o que fica dentro do quadrado. / A percepção é sempre incompleta e enganadora. / Uma parede em branco. / O observador desloca-se para a esquerda. / O corpo para a direita. / Uma figura prostrada, implorando. / Mais um deslocamento. / O Sacerdote (ou será apenas o Taberneiro?) escuta os lamentos mas não cede. / Ainda mais para a direita. / O Gigante adormece.
MARIA JOÃO SOARES [2025.06.18] _ Podia ser um cenário para uma ópera. / Uma ópera contemporânea, em que a natureza era compositora e intérprete. / Não sei porque me lembrou ópera, não assisti a muitas. A esta eu ia querer assistir.
ANDREIA LIMA [2025.06.18] _ O ser visto, / O ser imortalizado, / Quem vê também é visto? / Apenas um fragmento se imortalizou dentro do quadrado real, feito quadrado, mas toda uma narrativa surgiu e fez fixar o momento neste retrato. / E tu, preferes ver, ser voyer ou ser visto? / Depende? Tem dias? Não sabes? Não tens que saber. / Todos ocupamos distintos lugares e isso é bom, e uma brexit com nota medíocre. / Contemplar sempre. / E sentir, sempre, urge sentir.
MADALENA SERÔDIO [2025.06.19] _ Retrato de natureza morta na sua essência. / Reflexão sobre a identidade, do parecer com o meio apresentado. / Dois elementos encaram-se com ternura, existe uma troca entre os mesmos, súplica, medo, incerteza ao que se segue. / Ambiente desértico, representação de despedida com ternura. / Aproxima-se o fim para um dos elementos. / Hesitação, culpa, inquietude, perda. / Aceitação da morte. Registo belo da perda, de forma poética e crua. Tragédia.
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ Fora da moldura / Tudo se torna mais leve / E sobre a cauda do / medo a verticalidade / acolhe o embrião
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “Os aliens enquadrado” / Pegos no flagra/ Na preparação do beijo/ Captados, enquadrados, emoldurados / No gabinete do artista. [+ desenho]
B4 / BRISA
madrinhas FERNANDA NEVES, TERESA MÓNICA
dama de
honra XANA LAGUSI
FERNANDA NEVES [2025.06.13] _ madrinha B4 | OS CABELOS DE EMERENCE [inspirado em “A Porta” de Magda Szabó] _ Emerence cozinha e limpa a casa da escritora / no Inverno, quando a noite cai recolhe a sua casa. / Pelo caminho o vento desfaz-lhe a trança / espalhando os cabelos ralos pelas costas curvadas. / O pior é entrar em casa e fechar a porta. Os cabelos desfeitos pelo vento picam-lhe os / olhos. Emerence afasta-os. / Pega grande pá de metal. / Volta a abrir a porta e limpa a neve. / Regressa a casa. / Alisa os cabelos madeixa por madeixa. / Já na cozinha dá de comer aos gatos. / Vencer mais um dia. / Deita-se. / Espera pelo sono, cabelos espalhados na almofada.
TERESA MÓNICA [2025.06.14] _ madrinha B4 | VIDA _ O movimento, a Força, a Energia que se encontram presentes em uma “Natureza Morta”… tendo ao mesmo tempo uma grande delicadeza e leveza nesta Força Enorme da Vida!! / A ideia de “Armário” é muito interessante, como uma recolha da memória… de grande beleza e sensibilidade… ligação entre elas… O contraste de materiais, que embora diversos, se fundem. / Serenidade.
XANA LAGUSI [2025.06.13] _ dama de honra B4 | Estou sentada em frente a um armário de madeira com várias janelas ou prateleiras preenchidas por objetos de tons pastel que me lembram a cor das cidades antigas. Canas finas e pequenas amarradas por um cordel macio e alinhado servem de tapete a folhas secas e largas unidas por um caule que remete à imagem de um barco parado. Em cima um ramo pássaro com um bico evidente movimenta as suas asas e penugens da esquerda para a direita como um movimento do vento do sul para norte. É de noite agora, mas tenho a sensação que é de manhã bem cedo, sinto uma frescura semelhante à que sinto na minha praia quando a visito ao nascer do sol. Talvez este ramo pássaro possa lá ter vivido e trazido com ele esta sensação. Volto a olhar para o barco e percebi que não está totalmente parado, está atracado e movimenta-se, lentamente, acompanhando o mesmo movimento do ramo pássaro. Talvez esperem por algo ou alguém ou vão fazer uma viagem ou talvez tenham acabado chegar, já não sei. Apoderou-se de mim o Efeito Perfinst, o olhar os objetos e dar-lhes vida, são homens e mulheres, barcos e pássaros, o artifício das muitas narrativas e esperança que me obrigam a mentir na vida real em prol da minha verdade ao olhar esta janela. Apetecia-me estar dentro dela também.
MARIA JOÃO DE OLIVEIRA [2025.06.05] _ É o quadro que me dá mais vontade de tocar, passar os dedos em todas as falhas e irregularidades. / Qual é o objeto mais liso / Vestígio do peixe… e no entanto percebo perfeitamente a ligeireza dos movimentos que o animaram / Memórias misturadas / A atenção nos detalhes
OZGE TOPÇU [2025.06.11] _ B4 + B5 / It is a tree on the shore, between some ancient rocks. There is a big storm, that’s why the tree branches and leaves go to one direction. It is a direction also pushes the boat (ship) away. / Ship is trying to approach to the shore at B4. But storm is in wrong direction and it’s very difficult. She finds the way after a very challenging journey in the sea to come back.
JULIEN PAGNAC [2025.06.13] _ La structure de la nature reste même si le temps et le vent emportent les choses. / Les branches sont à l’horizontale, dégarnies, mais restent solides. / A l’image des humains, répartis sur tous les continents, qui évoluent mais restent présents malgré les intempéries. / De nouvelles générations reprennent vie sur la trace des Anciens (génération d’avant). / Structure of nature remains even though wind can bring things away. / All those roots can represent human bodies on different continents, that evolve but still remains. / New generations do replace the eldest in the same birthplace.
JOÃO LAVAGANTES [2025.06.20] _ O sol do vento, num mundo deserto com ruínas dos humanos. As formas do vento soprando do oeste, criando ondas por onde passa. O vento imponente e sem limites ou barreiras, criando um espetáculo visual, audível, olfático só para quem quiser reparar. Indiferente a todos, a sua viagem é só dele, do vento.
CARLA PAOLIELLO [2025.06.25] _ Olho para a janela e só consigo ver o vento. / Seu caminho é da esquerda para a direita / Começa levemente para cima, mas no sentido já descrito / Começa único e espesso para depois ramificar-se em muitos e mais finos. Segue a ondulação da maré e de oceano vira espuma. / O cheiro do incenso fica mais presente. / O vento paralisado, imóvel no quadro B4 quer se mover. / Ele quer percorrer a sala, dançar com a música que está ao fundo, fugir para fora e levar quem escreve. / Não consegue. Passeia apenas dentro, toca o sino e volta para casa. / Congela-se em B4.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “O vento à esquerda” / Sopra e empurra / Sopra e desloca / Voa / Vai / Vai. [+ desenho]
ANÁLIA GOMES [2025.06.28] _ O que resta de um ramo, um arbusto, fustigado por rajadas de vento, no final do Outono, qual filigrana vegetal… Abaixo folhas secas de plátano, quiçá, ou qualquer outra árvore.
B5 / COSMOS
madrinhas SUZANA BORGES, TERESA CAMPOS, CATARINA VAZ PINTO, FILIPA REIS
pajem de honra MIGUEL PEREIRA
SUZANA BORGES [2025.06.04] _ madrinha B5 | ACONCHEGANTE CÓSMICO _ Como sentimos uma forma que é redonda, e que além disso tem umas dobras maternais? E que tem a tez manchada de um padrão natural? É aconchegante, sim, mas ao mesmo tempo uma forma universal, cósmica. Sinto-me confortável, e confortada, a olhar para ela, ao poder olhar para ela. O espaço é atravessado por uma forma longilínea, com uma diferente estreiteza em cada uma das extremidades, e estas extravasam o que seria o espaço. Apesar disso, as duas formas, sempre as vi como indissociáveis, e como uma composição harmónica, superior, isto é, que nos remete para cima.
TERESA CAMPOS [2025.06.21] _ madrinha B5 | LÁ VOU EU _ Sentei-me naquela folha e deslizei pelos meus sonhos, que julgava já não ter.
CATARINA VAZ PINTO [2025.06.27] _ madrinha B5 | HORIZON _ Toda a instalação tem algo de perturbador, naturezas mortas, quase petrificadas, fazem-me pensar que também acabarei assim, vegetalia… / Sol? – Canoa? / Lua? – Folha? / Cratera? – Madeira? / Universo? – Vegetal? / Escolhi este conjunto porque é o que menos perturba. / Gosto da aparente simplicidade e minimalismo das formas, do círculo imperfeito e das linhas pontiagudas, / do contraste entre o claro e o escuro, / do contraste entre o peso e a leveza, / do sentido de mistério, mas também de essência e de clareza que a cratera transmite.
FILIPA REIS [2025.06.28] _ madrinha B5 | À DERIVA _ Sinto que o pé me foge para África / Eu gostava de fugir para a África / Ou é nostalgia? Insegurança? / Faz-me lembrar calabaça / Mas na verdade parece cortiça / A África junta-se o Alentejo. / Um barco ao vento / Ou à deriva? / Não lhe vejo qualquer relação com o cesto com a flor folha que lá está dentro nem com sexo / algo que me ocupa o corpo / lua cheia / Espaço ocupado / Eu também ocupo espaço / Até o que deixo vazio / Barco à vela / Barco à deriva / Vida à deriva / Que vai para onde o vento a leva / pedimos bons ventos / não pedimos nada!
MIGUEL PEREIRA [2025.06.26] _ pajem de honra B5 | […] Desde que olhei para esses objectos vi uma lua como se fosse de um desenho nipónico, em grande escala, e por baixo uma grande baleia, numa posição bastante aerodinâmica, como se atravessasse um mar em velocidade cruzeiro. Acho que uma lua com uma baleia, imaginando a noite e o mar, combinam melhor com esta proposta de espaço, som e luz, acrescentam mais densidade e deriva, um pequeno grande desvio ao infraordinário desta realidade, que afinal não deixa de ser o que é, um pedaço de cortiça e uma folha seca de palmeira dentro de um armário gigante de madeira iluminado por dentro, uma sala meio escurecida com pessoas e um som envolvente.
OZGE TOPÇU [2025.06.11] _ B4 + B5 / It is a tree on the shore, between some ancient rocks. There is a big storm, that’s why the tree branches and leaves go to one direction. It is a direction also pushes the boat (ship) away. / Ship is trying to approach to the shore at B4. But storm is in wrong direction and it’s very difficult. She finds the way after a very challenging journey in the sea to come back.
RAFFAELA GARZILLO [2025.06.11] _ Molto bella questa installazione / Mi ricorda la luna di George Meliès / E sotto una barca luna e mare / cielo e acqua
JORGE MARTINS ROSA [2025.06.14] _ O rio está calmo, mas a canoa ficou em terra. Na margem, as lavadeiras dedicam-se à sua monótona tarefa. / O sol começa a aquecer.
MARIA JOÃO SOARES [2025.06.18] _ Mal entrei na sala, cativou o meu olhar. / Podia olhar para ela durante muito tempo. / Dois objetos distintos que combinam na perfeição, sem se tornarem num só. / Como se fizessem parte de um altar, onde voltamos para descansar, aliviar, “despensar”.
ANDREIA LIMA [2025.06.18] _ Lembrei-me de Timor, de canoas e de um grande escudo. É incrível pensar que o lado bélico forjou toda a nossa humanidade, caminhos, criou cidades e tecnologias diversas e singulares. / Surgiu-me as colecções etnográficas extra-europeias (de) que hoje tanto se fala. Talvez porque me veio à memória as grandes exposições nacionais, europeias, universais, universais dizem eles, esses senhores, o que é ser universal? Ontem, hoje e no amanhã? / Retomando as grandes exposições, onde além de artefactos, objetos, pessoas, sim pessoas de carne e osso, obras de arte, descobertas se expulsam os produtos ditos coloniais, as matérias-primas da altura, em espécies e em fragmentos. / Quando deixamos de fazer parte de ti, oh natureza, e usamos e abusamos de ti como uma mera mercadoria?
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Aproveitamento de folhas e cascos de árvores para servirem de utensílios como pratos e travessas.
HELENA CASTRO [2025.06.19] _ Ao fim de vinte e dois anos, quatro meses e quatro dias, a vela tinha-se tornado muito pesada. / A estrutura continuava intacta como no primeiro dia. / Eu gostava de deitar-me, à noite, no convés e imaginar que era a lua, tal como me lembro dela. / Mais difícil, e não por falta de tentativas, era imaginar o luar. / Alguns dos meus companheiros nunca tinham visto um luar.
ROSA PELIÇAS [2025.06.19] _ Ó barco! / Como te faço andar? / Tua vela circular / Singular / Pode ser pedra / Pode ser leve / Lembras qualquer coisa de oriental / Orienta-te, orienta-me / Isto parece-me pretensioso / Mas agora não vou apagar /Foi o que se arranjou neste dia
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ “Felizmente” / Felizmente que existe / o vento / para revelar o esqueleto / dos peixes ou dos pássaros / triste seria navegarmos / pelo mundo sem que / houvesse um cemitério / de máscaras // Assim, o fóssil / voga para a luz / de onde vem. // Resiste à cantilena / dos profetas.
JOÃO LAVAGANTES [2025.06.20] _ A lua. O adorado planeta morto. / Com a sua cor acinzentada, com depressões físicas e mentais. Grande, linda, pura, simples e desinteressante, presa ao nosso alcance enquanto à velocidade da luz, passam estrelas, cometas rasgando o céu. Rastos / lindos, velozes, efémeros.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “Anémona” / Do mar ela veio / Morreu por falta de água / Por falta de amor / Ressecou-se / Remoeu-se / Por falta de amor / Por falta de quem lhe aguace / De quem a amasse. [+ desenho]
MANUEL HEITOR [2025.06.25] _ Uhau! / Já não estou preparado a concentrar-me com “atenção”! / Porquê? / … já em 1978, Herbert Simon, Professor de Ciências da Computação na Universidade de Carnegie Mellon em Pittsburgh, Prémio Nobel da Economia de 1978, nos tinha avisado que numa sociedade com abundância de informação, o desafio seria a “atenção”! / Recentemente, Yves Citton, filósofo francês, abordou a “ecologia da atenção” que enfrentamos nestes tempos de abundância de informação (detalhes em “The ecology of attention”, Polity Press, 2017)…/ Mas pergunto se a “estética” pode alterar ou influenciar todas essas teorias? // Por exemplo, este “círculo” de madeira em que estou focado e que está inserido neste fabuloso ARMÁRIO será um “mero” resultado do desastre ecológico que todos estamos a presenciar? … ou, pelo contrário, o nosso próprio retrato? / Com “atenção”, tento ver o meu nariz, naturalmente deformado (como todos!?), dois olhos, sempre tortos, e duas orelhas, bem assimétricas. / Será que é o retrato de um corpo que já não me serve? (ver, Marta Lapa, 77ª criação da Escola de Mulheres, 2024). Ou apenas a falta de tolerância e a obrigação a aceitar o corpo e o facies a que fui obrigado aceitar? // Não, afinal dizem-me que é o resultado da aplicação de uma plataforma de I.A. generativa! / Mas, então, quem perguntou e o quê? / O que procurava, quem quer que fosse com a pergunta que gerou, ou fez gerar esta imagem com I.A.? / Já sei! … vem de inspiração em imagens de satélites de muito alta resolução óptica e espectral. Sobretudo inspirada e construída com imagens moldadas por jovens de Shangai, na China, que se dedicam, dia e noite, a usar e a modelar as imagens obtidas pelos satélites “Sentinel-2” da constelação europeia COPERNICUS! // …COPERNICUS? / Mas qual seria a reacção de Nicolaus Copernicus a olhar por esta “estética” circular, com 2 olhos, 2 orelhas e 1 nariz, todos bem “tortos”? / … será mesmo o nascimento da ciência moderna, ou apenas mais um truque “narcisista”, “a la Trump”? / Felizmente nunca saberemos. O Trump há-de morrer antes… (!) e antes que o seu sucessor “cuspa” em todos nós, será o “Povo” a tratar deles! // Revoltem-se! / Todos! / Revoltem-se! / Lutem pela liberdade de perceber que a “estética” não tem limites e que “ninguém” pode ter medo de gritar, rir ou chorar quando melhor lhe apetecer! // Mesmo com 2 olhos tortos, 1 nariz torto, e 2 orelhas, muito, muito tortas! / Viva a liberdade! e com ela, a estética! // Há…, falta a música! / Este ruído que ouvimos enquanto admiramos o ARMÁRIO faz-nos esquecer o melhor que ouvimos de Beethoven ou dos “Chutos e Pontapés”… //Afinal, ajudou a conseguir “concentração” e até com “atenção”! / É a “ARTE”!… estúpido! // Ou melhor, são AS “ARTES”! / Da estética dos armários, à música ambiental, passando pela mobília…, tudo aqui é o resultado da ARTE! / e dos ARTISTAS que fazem a ARTE! // Viva a Karnart, o Luiz e o Velez, que nos fazem pensar e “deliciar” a estética!
ZITA LOPES [2025.06.25] _ A lua cheia e dourada, espelha-se na ondulação dos montes. / Uma suavidade cristalizada na noite, a caminho da madrugada. / Sopra uma ligeira brisa que torna as curvas da seara mais fluídas, como uma serena respiração. A terra inspira e expira num sono tranquilo. / Pouco a pouco os pássaros começam a soar e o dourado da lua começa a ficar esbatido pela neblina da madrugada.
GINA FLOR [2025.06.26] _ Seca e alongada, a folha repousa como um traço de vento como uma paisagem árida frágil, mas persistente. A “Lua” paira sobre a linha do horizonte evidenciando toda a sua beleza. [+ desenho]
REGINA BRANCO [2025.06.27] _ Para onde guias o teu barco, guardador de sonho? / Quando a noite cai na aldeia, sou só eu e a Lua, só as cigarras se atrevem a lançar lenha para a fogueira. / Nos domingos à tarde, não importava se era tarde ou se era cedo. Deitávamo-nos na relva e ouvíamos o barco a prender-se nos ramos do rio.
HELENA SALVADOR [2025.06.27] _ Invasora? / Ah, sim? / Pois A A A / B B B / Movimenta-se lânguida e lentamente com o sol às costas / também é lesma com a concha à cabeça? / B B B / 4 5 5 Transporta? Trás? Não é viva? Não é morta? / E que tal o A5? É A B 1 / 5 5 ½ / Cortiça/ Solar e quente é terra terra / Folha de que árvore? Outrora atirada ao ar / Ficou rija como madeira e agora rasteja…
ANÁLIA GOMES [2025.06.28] _ A instalação que mais se me impôs ab initio, talvez porque a que mais destoa do conjunto pela grandiosidade. A peça de forma arredondada, que parece cortiça, a mim sugere-me um enorme cogumelo ou a armadura de um guerreiro. Por debaixo, a enorme folha de palmeira (?) alongada sobressai pela forma pontiaguda e também pelo efeito de luz.
B6 / MAGNÓLIA
madrinha a título póstumo ADÍLIA XAVIER dedicatória
HELENA AMARAL [2025.06.21] _ Natureza Morta, em junho de 2025 / Se fosse dantes, esta flor, tão perfeita como agora se apresenta, teria cor, cheiro, seria um grito de alegria. Mas não escreveríamos sobre ela – banal, como tantas outras que pisamos nos campos. / A solenidade da pose da flor morta, a solenidade de uma flor morta, tão banal, arquivada numa estante, isto sim, é motivo de escrita. A morte. A solene flor banal arquivada na posição B6 está morta. E é sobre esta imagem crua de natureza morta que escrevemos. E porque escrevemos, a solene flor banal, igual a tantas outras que ao longo da vida já pisámos nos campos, e que, solene, marca presença na prateleira B6, ganha vida. A vida das palavras que nos sugere e que, em dúvida, apagamos. É o que a morte nos faz: apaga-nos, e aos outros a quem amamos. / As folhas cristalizaram, fixaram-se no preciso momento em que uma aragem mais forte lhes levou o viço. / A flor, solene e banal, está morta, mas as suas folhas evocam o movimento que ensaiavam antes do último balancear movido a vento. / As folhas estão mortas. A flor está morta, arquivada mas presente como os nossos mortos, os que no balancear de um passo sofrido nos deixaram sem cor, sem cheiro, sem o ânimo de um grito de vida. / Se fosse dantes, esta era uma banal flor sem história, viva como tantas que já pisámos nos campos. Agora, agora arquivada na prateleira B6, morta, ganha a nova vida da natureza morta.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “O helicóptero” / Pousou e foi capturado / Está agora na cesta contido. / Não voa mais. [+ desenho]
LIA OOM [2025.06.28] _ Castigada por morrer antes de ter sido morta. A minha lúgubre simplicidade, ofuscada pela vivacidade dos defuntos que decaíram a seu tempo, não existe por si só. Ganha forma, significado, numa simbiose com os que pisam a linha ténue dos sentidos. A existência… explicada pelo todo. A insistência… adormecida num leito de um desejo obsessivo por destaque.
C1 / ASSÉDIO
madrinha MARIA JOÃO RIBEIRO
dama de honra MATILDE TEIXEIRA
MARIA JOÃO RIBEIRO [2025.06.26] _ madrinha C1 [e C6] | REPTILIANO IMPROVÁVEL _ O que desde logo me impressionou foi que, apesar de serem construções, o resultado era surpreendentemente animalesco, natural. Construções selvagens, bizarras, mas naturais ao mesmo tempo. Vejo animais, não há dúvida. Animais muito antigos. Reptilianos. Em ação numa narrativa que se imagina de sobrevivência e persistência. Reptilianos improváveis. Como eu.
MATILDE TEIXEIRA [2025.06.12] _ dama de honra C1 | Força antioxidante. Forcemos a força da mãe. Do Deus-Mãe que já não sabe ser Deus. Nem Mãe. Perante a Mãe-Eixo, saltam os crentes e não-crentes a corda do seu corpo, do seu ventre. O ventre que é a única parte do seu corpo que respira. Que ainda chora. Que ainda se embebeda de intensidades que não são as suas. Que ainda rói as unhas. Que ainda intui que sente raiva a olhar para as suas veias salientes. Eles, que ainda sentem a sua presença, usam o grito para chamar a atenção. Quebram, assim, a 4ª parede. Mas não o fazem por ela, fazem-no por eles próprios. Querem saltar o eixo. Querem saltar a Mãe-Eixo. Libertar-se dela, usando-a. Tentam cegá-la através do peso, apesar de saberem que nada pesa mais que uma mãe ou com a imagem dela. O esqueleto da mãe-eixo resiste à rocha, à morte, à cegueira eterna que é a pior das mortes. É possível um filho odiar mais uma mãe do que ela a si própria? O pedido de ajuda à 4ª parede é a prova viva… Ou morta disso. Quando nos sentimos revoltados não nos resta outra coisa senão cegar. Não ver é não ouvir. Tapam os ouvidos mas esquecem-se que o umbigo também ouve. Desviam os olhos, para não sentir os bafos dos outros. Dos outros que ainda querem uma mãe… Apesar de serem cúmplices da sua perfuração. Mãe-perfuração à procura de um eixo. De um búzio para ouvir o que resta da ilusão de mar. De azul. De azul Klein. De arte. De corpo. De filho. Os filhos que ainda desejam o som do ventre, lambem o chão à procura do sabor dos cordões umbilicais que foram usados como facas para a perfurar. Não encontrando nada começam a perfurar-se a si próprios à procura do som do mar. De um som que lhes indique um caminho sem dor. De um prazer sexual que inclua todos os sentidos e que se chame mãe.
SIMONA ACCATTATIS [2025.06.11] _ Hai portanto con te / la follia del tuo cane. / Ora siete in due, / il tuo dalmata e te. / E miei occhi sono bianchi, / la macchie nere le / ho perse correndo / dietro le tue pazzie. [+ desenho]
JORGE MARTINS ROSA [2025.06.14] _ A mãe-lobo está deitada, mas de cabeça erguida. Os seus três filhos vêm procurá-la. O pai-lobo tarda. Ainda não há refeição, e os filhotes já são demasiado crescidos para sugarem da sua mãe.
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Kayak com esquimós a fazerem frente a ondas no Ártico. / Também estes irão escolher a zona de caça para a subsistência da sua espécie.
MADALENA SERÔDIO [2025.06.19] _ Tragédia. Renascer da sua forma mais pura. / A angústia da perda e o recomeço pós-destruição. / Frágil e espinhoso percurso. / Entreajuda de um ecossistema. / Representação de um percurso doloroso e atroz. / Concretização. / Exploração de algo em desenvolvimento, dramatização de uma busca transcendente. / Entreajuda de emoções e simbiose. / Elemento brusco procura entreajuda de outrem, com um objetivo comum. / Perdas sentidas pelo caminho, obstáculos constantes. / Recomeça. Novo início de algo intuitivo. Busca incessante por algo novo, procura de conforto. / Surgem raízes e percursos desconhecidos, novos caminhos, diversos resultados. / Inquietante. Ambiente instável. Falsa sensação de conforto. / Será estável? Reflexão sobre inquietude. Confusão relativamente ao meio que rodeia, será exploratório ou uma ameaça? / Incerteza e medo do percurso que se segue. / Existirá abertura? O seu destino estará traçado? Será o seu fim como o elemento que os convoca, que os carrega de forma imprevisível e inquieta? / Frontalidade. Ameaça.
MARIA LUÍSA VASCONCELOS [2025.06.19] _ Emaranhado de troncos / Entrelaçados, fortes / Secos… Retorcidos! / Lembram o deserto / Onde tudo é estéril! (Nem tudo!) / Eis que surge um tronco / Que mais parece um cão! / Transmitindo a grande força da imagem / através do seu instrumento fálico / Que percorre toda a instalação. / E olhando com mais atenção, / as extremidades de alguns troncos / têm botões que poderão florir…
JOÃO LAVAGANTES [2025.06.20] _ “A luta íntima” / Dois corpos numa divisão, uma relação longa, íntima / Afastamento de um lado, aproximação de outro / A retidão de um ser, o outro maleável / O desespero, a frieza / O amor, a atenção / Dois corpos ligados adorados e odiados / Os espinhos vão desaparecendo com o passar do tempo / Pernas ao ar. Corpos amados e doridos. / O terceiro elemento, o cão sempre presente. / A luta que todos odiamos e amamos / A vida a dois na sua verdadeira intimidade
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “O cavalo marinho do agreste” / Do peito atira a flecha. / Defende o território. / Contém o ataque / Oh, cavalo marinho do agreste, / Contém o ataque! / Proteção e força
ANA CALENZO [2025.06.28] _ Ela é feia. Ela é bonita. O bonito é feio. / Ela é bonita. Ela é feia. O feio é bonito. / Tudo se inclina para um lado. / Será ali que mora o amor? / Tudo menos um, percebo quando dou um passo atrás. /Dou amargo, conflito. / Capitu, Otelo / Dança do amor, dança da guerra / Fera, serpente que voa. / Onde acaba a teia da aranha? / Onde acaba meu corpo quando você me toca? / É a extremidade que sente falta / que procura / expandir-se.
C2 / ECOCÍDIO
madrinhas ANA BUSTORFF, MARIA JOÃO BRILHANTE
ANA BUSTORFF [2025.06.05] _ madrinha C2 | A TEMPESTADE DAS ALMAS QUE GRITAM _ Solidão / Tortura / Violação / Arame farpado / Fogo das almas / Crepitar / Gritos e suspiros / Choro intenso // O inverno agrilhoado / Sufocar / Guerra / Gaza / Prisão de alta segurança / Crime e castigo // A cesta do Diabo // Tempestade de medo / Horror.
MARIA JOÃO BRILHANTE [2025.06.11] _ madrinha C2 | FLORESTA ARMADA _ Um cesto, uma floresta, como conter uma floresta num cesto de arame? A mão humana acredita que tudo pode. Escolher os pequenos troncos e ramos, procurar a harmonia, criar uma cena, Ah! (?) a floresta que avança como profetizaram as bruxas. Agora estática e contida pela armadura do cesto, esperam que algo aconteça. Existe um antes e um depois. O antes da instalação: Alguém instalou. Mas não de uma qualquer maneira. Desta maneira, como cena. E qual será o depois da instalação? Como passa ou é gerado o tempo? O tempo do olhar, de ver os caminhos da floresta, do primeiro para o plano da retaguarda. E como é estimulado o movimento de ascensão? Aquele que tantas vezes praticamos sem darmos por isso? Da base ao topo, da terra ao céu. Aqui notamos dois ramos-árvores mais fortes, um deles querendo passar para lá dos limites do cesto-armadura. Convite. (?), um outro movimento do depois se insinua: duas mãos à esquerda e à direita, querem pegar nas peças do cesto, mas como fazê-lo sem ameaçar a integridade e o equilíbrio da floresta encantada, digo, instalada? Uma interdição existe, tal como existe o poder do factor humano sobre a natureza. Esta disputa que vem dos confins do tempo e para a qual um cesto com floresta dentro nos desperta.
JOÃO RAPOZO [2025.06.04] _ Acolhimento. Welcome. Infinito num finito contido. Abraço-te despido e roto. Playground. Salto. Salto. Um palco. Projector. Vídeo micro mapping.
ROMAIN [2025.06.05] _ Les bonsais me rappellent les arbres que je faisais pousser en étant plus jeune. / Cela m´évoque de beaux souvenirs d’enfance. / Quand l’un s’éteignait e ne pouvait plus pousser, / Je tentais au mieux de le préserver pour le garder même une fois séché. / Chaque année un nouveau joignait le jardin au retour des vacances d’été. / Je conservais chaque arbre dans son pot émaillé. / À la fin, j’avais réussi à arranger un petit ensemble avec tous ces arbres séchés. / Je les préférais ainsi, figés. / Je n’ai jamais pensée a exposer leurs racines. / Je les aime présentés dans le panier.
MATILDE TEIXEIRA [2025.06.05] _ Não vejo o horizonte. Não vejo o teu horizonte. Nada é visível. Não parece existir horizonte. Apenas cheiro o cenário. Cheira a suor. Por momentos cheirei o suor do cenário que construíram para nós… para vós. É um suor nervoso e incendiário. É incenso. O suor cheira a incenso. É tão intenso que distrai o olhar que pretende ser atento e minucioso. Torna-o nervoso. Estamos todos nervosos sem querermos estar. Sem precisarmos de estar. Os cigarros tornam-se o único escape possível. Usamo-los para nos suportar. O estar de pé, agora, só se torna possível pela nicotina. Que nunca se esgota. Os cigarros não se apagam. Estão lá para suster o cenário. Ou a nós. Já nos tornámos a mesma coisa. Agora somos um corpo de baile a tentar alcançar alguma coisa que não sabemos o que é. Talvez algo que se pareça com seda. Ou com linho. Ou com algodão. Algo que não saiba as regras do jogo. Vivemos a vida inteira a jogar futebol dentro de um estúdio de dança e a dançar dentro de um campo de futebol. Queremos alcançar a não-lógica. Sim, erguemos os braços à procura de sentir algo que não conhecemos. Há uns dias criámos um jogo entre nós. O primeiro a tocar no tecto pode criar uma lógica nova. Sei quem conseguiu mas ele próprio não sabe. Não se apercebeu que tocou. Ou se calhar a lógica criada é precisamente a de rejeitar a lógica do toque. Ali não há toque. Como posso tocar alguém ou algo que não conheço? A morte é garantida. Como queremos morrer? É a pergunta que o horizonte nos coloca. Mãos no ar e salve-se quem puder. Ou quiser. Torcemo-nos. Defecamos. Partimos braços uns aos outros e, no fim, escolhemos parir. São partos contrariados sem fetos no interior. Parimos bolas de futebol sem ar. E fazemo-lo em apneia para doer menos. Fingimos que estamos petrificados e o melhor a encenar a sua imobilidade recebe um filho. Ou uma bola. Para usar de muleta na aula de clássico. Ninguém quer ir para a aula. Ninguém quer dizer que faz dança. É uma vergonha. Não querem ser bailarinos, querem ser animais. Animais não. Camaleões. Isso sim. Camaleões. Só assim sendo conseguirão sobreviver. Tornam-se o cenário e cristalizam-se. Deixam de pensar. Deixam de sentir desejo. Ou lá o que isso é. Nem eles sabem, só fingem saber. Enquanto isso, enquanto continuam a trabalhar o corpo para o encontrar, continuam a receber boladas que os seus filhos lhes enviam. Não caem no solo simplesmente porque não existe gravidade. Estamos, quer dizer estamos não… estão… eles estão num campo de futebol, enclausurados, onde a única saída são tocas. Os camaleões cabem em tocas? O horizonte não responde. Tempo já passou, isso é certo, mas eles parecem ainda não se quererem conhecer. Se calhar também estão a fugir dessa lógica. Para já, não há toque nem o outro em plano. Nem o próprio horizonte. Apenas o cheiro magnético do cenário. Que está a queimar. Que está a queimar e que não quer ser cinza… apenas saliva de camaleão. Como eles. Como nós.
RAFFAELA GARZILLO [2025.06.11] _ Alberi in miniatura ingabbiati / in un grande cestino / la natura non poteva più essere / libera, ma era oppressa e distrutta / dall’intervento umano
SIMONA ACCATTATIS [2025.06.11] _ Lei nascondeva la sua malattia dietro la mia sana follia. [+ desenho]
GONÇALO CRUZ [2025.06.12] _ Um balanço de vida. / A vida. Um conjunto de “pessoas”, situações, vivências que me trouxeram onde estou hoje. / Experiências positivas, experiências negativas. / Um misto de emoção. / Conjunto de pessoas que passaram pela minha vida e me marcaram. / Vejo a minha vida resumida neste objeto. / Este conjunto fez de mim aquilo que sou hoje. / E sem saber se é o caminho certo ou errado, gosto dele./ Obrigado pela experiência e pela reflexão.
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Bens adquiridos após várias horas de trabalho árduo.
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ Dançam mil mulheres / no seio de um adufe / Na rotina dos gestos / a transmutação
BEATRIZ MARQUES [2025.06.21] _ Vazio… / Uma floresta vazia, mas ao mesmo tempo cheia. Faz-me lembrar umas árvores secas sem vida, como se estivessem num deserto. / Árvores despidas, algumas com troncos grandes e outras com troncos pequenos, galhos grandes e finos. / Dá a sensação que têm um limite e, que têm uma rede que as separa do resto do mundo. Chega a parecer sufocante.
GUILHERME BARROSO [2025.06.21] _ Existiu mas deixou ou vai voltar / Como se o nosso olhar fosse levado numa viagem infinita, tal como hoje vemos a inteligência artificial criar imagens sem fim, onde novas imagens são criadas sobre outras imagens. / Sinto que o meu olhar é levado, quase como que obrigado a entrar nesse zoom/portal. / No entanto o que desperta o meu coração talvez pelos tempos que vivemos de guerra e conflito e de bombas a caírem dos céus deixando para trás destruição, natureza morta. Um grupo de pessoas presas, encurraladas, despojadas de tudo, apenas os corpos sem mais nenhum artifício. / Ou talvez seja como me sinto, no meio de uma floresta decrépita, onde todos estamos, e de onde não conseguimos sair. / O arame que nos cerca, a sociedade, o céu, a terra, mas que nos une ao mesmo tempo. Que merda. / Mas a ideia de zoom, de afunilar à procura do que está lá atrás, de uma porta, de uma saída, continua a levar-me. / Fico (ficamos) à espera, morremos (morro) de velho(s), fomos enclausurados. Tantas raízes que foram precisas para crescer(mos). Tornaram todos aqueles troncos, fortes, mas que no fim deram vários ramos frágeis, que um dia deram folhas/flores mas que nunca mais foram vistas. Quo vadis? / Entre tantos ramos, tentáculos surgem em direção ao abismo, agarraram-se uns aos outros numa esperança de não serem engolidos, de estarem/ficarem sós. / Na verdade apetece-me chorar, apetece-me gritar. Não quero ficar imóvel, não quero ser um resquício do que já foi. / Uma alma, duas almas. Três almas, tantas ali a olhar para mim, não sou eu que olho para lá: lá, ali, aqui, acolá… / As veias, as ligações de energia, as sinapses, o ritmo cardíaco do arame que nos envolve. / Já vos disse que me apetece chorar? Que me sinto sombrio? Mas não estava antes. Ah, foda-se. Agarremo-nos!
SEBASTIAN FILGUEIRAS [2025.06.21] _ As Árvores. /// Quando nunca estive em África, nunca senti este calor que como um vapor oscuro, sai da terra e nunca me queimou os pés. / Não importa, as tuas árvores estavam lá e as suas raízes sem ventres, alimentaram-nos. / Pouco ou nada sei destas árvores, mas sei que jazem a mil, a mil e quinhentos, a muitos kilómetros, quando nunca estive em África a nunca paisagem, nunca estava fixa. / E mesmo hoje, não está.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “A feira seca” / A colheita tardou. / Onze espécies/espécimes / foram recuperadas, / Mortas / Os corpos expostos na cesta. / Triste fim. Raízes à mostra. [+ desenho]
SOFIA CAMPANIÇO [2025.06.25] _ Exército de raízes presos numa gaiola ou galinheiro. / Na natureza o verde desaparece mas o castanho não. O seco e o desidratado têm a capacidade de perpetuar. / As raízes deixam de se expandir para se imortalizarem numa condição quebradiça. / Quando uma árvore morre, seca, e toda a folhagem desaparece, há uma espécie de simetria que surge. A raiz, quando arrancada, e os troncos da copa sem folhagem, adquirem uma aparência semelhante. Uma parte estende-se para alcançar o céu e a outra o interior da Terra. / Nesta instalação observo uma paisagem árida. Imagino que verdejantes e na juventude estas ‘pequenas árvores’ não caberiam nesta cesta de arame e isso modificaria por completo a paisagem. Assim como estão, sugerem uma organização, uma arrumação desordenada porque os ramos finos e secos e as raízes finas e secas, fundem-se com a trama metálica da cesta que as envolve. Caso estivessem vivas, na terra, continuariam a crescer, atrofiadas, e a entrelaçarem-se nos orifícios da cesta de metal até se apoderarem dela, ou então até se tornarem num mesmo objeto, sendo impossível distingui-los. Na verdade, já sinto que sejam só um. / Qual será a idade destas árvores? Parecem bonsais. As bonsais crescem nas fendas das pedras e é isso que lhes encurta o crescimento. Agora, depois de mortas, estas novamente encurraladas, só muda a matéria que as impede de crescer e o feito de já não poderem crescer de maneira nenhuma. Mudou tudo então.
Anónimo [2025.06.26] _ Troncos, enraizados, contraídos num espaço contíguo. / Sensação de sufoco, de aprisionamento. / De querer sair e estar liberta, / Mas sem ter essa possibilidade. / Morte. / Mas, de alguma maneira, observa-se um crescimento. / Talvez estivessem vivas quando foram aprisionadas, / talvez tivessem, de alguma forma, tentado libertar-se. / Existem troncos mais finos, que tentam transpor as barreiras que as limitam. Cresceram. / Há vazio; uma sensação de vazio e, ao mesmo tempo, claustrofobia. / Gritos, sufoco, desespero. / Tentaram resistir. Quebrar o espaço que as aprisionava. / Tentaram sair. / Pode a morte libertar?
ANABELA CARVALHO [2025.06.26] _ Os caminhos que se cruzam e se entrelaçam. As vidas e passagens, tantas vezes cortadas. / As ausências. Os medos. As dúvidas. A vida e a morte. / A cesta como horizonte de esperança, sabedoria e conforto – O porto seguro! Será?
MANUELA MARQUES [2025.06.27] _ Leva-me de volta; / Carrega-me com gentileza, / Sou frágil mas estruturada, / a memória de uma floresta habitada, / recolhida para que o tempo se lembre, / amparada, comercializada, aprisionada num cesto de supermercado, num campo de refugiados. / Aguardo voltar à terra de onde me arrancaram as raízes, / Partiram-me o coração, quando me impediram de caminhar, lentamente, sem ninguém decifrar. / Quebraram-me as pernas, os pés, as mãos, / não possuo a vontade e a capacidade de abraçar a vida. / Sou aquilo que está à vista e pouco se sente. / Leva-me de volta, / para o meu lugar matriz.
ANA CALENZO [2025.06.28] _ É noite de Shakespeare / Pode a árvore piscar o olho? / Um velho pergunta. / Olhos abertos pelo toque / E os galhos são como dedos / por onde o vento escapa
SOFIA SANTANA [2025.06.28] _ Uma floresta num cesto. / Não só é prático, como é agradável. / Mais do que as histórias que cada uma destas árvores poderá ter para contar, a mim interessou-me saber como foram parar todas juntas, no mesmo cesto. / Disseram que foi por magia. Será? / Magia não sei, mas numa coisa estamos de acordo: / Não foi obra do acaso. / Fui ver mais de perto. Parecem indignadas. / Se calhar não estão ali de livre vontade. / Se calhar não estão num cesto, estão cercadas. / Se calhar são perigosas, ou espécie protegida. / Se calhar nunca vamos saber.
C3 / MATRIMÓNIO
madrinha FÁTIMA VAZ
FÁTIMA VAZ [2025.06.28] _ madrinha C3 | NINGUÉM SABE O QUE PODE UM CORPO _ “Ninguém sabe o que pode um corpo” B. Spinoza /// Intestino / Cabelos / Crâneo explosivo, excêntrico / Rins / Balança que (não) dança / Cápsula, fenda / Origem, essência, forma / “o que vês escreve-o” / Apocalipse, 1:11 / ________ , instabilidade / Desdobramento de som / Fogo extinto, onde imagino algum lume em / pétalas triangulares / Contemplo a arquitectura luminosa / Não há vento e no entanto escalda a ausência de pó, areia / Posso passar a língua pelos favos gretados? / E o mais importante é que o terceiro reino mineral já anda metido nisto / As metamorfoses começam a desfocar-se / Paisagem sem inundação / Alguém achou a minha cruz? / Algo dizimado, aqui ao lado / Na secura áspera do arame
MARIA JOÃO DE OLIVEIRA [2025.06.05] _ É uma festa / sem preconceitos, / come-se e bebe-se e conversas ouvem-se / Que pensam da comida? / Que pensam das bebidas? / Que pensam da festa? / Olho de fora, imagino dentro.
MARIA JOÃO SOARES [2025.06.18] _ A mesa está posta. / Um banquete. / Inúmeras iguarias exóticas expostas de uma ponta a outra. / Quem serão os convidados?
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Ornamentos colhidos e trabalhados para decoração de habitat (palhota, tipi …)
INÊS MARTINS [2025.06.20] _ Podia ser uma mesa de jantar. / Vejo flores, à esquerda na jarra. As medalhas do avô na parede. Mas são sementes. Secas. / A sopa à direita, arrefece, à espera de quem lhe pousou a colher em cima. / Serão sementes ou especiarias? Estão secas, em todo o caso. Será uma maçã? Não. Abóboras. / São abóboras. Secas e sementes. Mas podia ser a mesa de jantar.
JOÃO LAVAGANTES [2025.06.20] _ “O concerto científico” / O cientista maluco que sempre sobe ao palco faz uma nova experiência, para a plateia é intrigante, interessante, assustador. / Fetos, espanta-espíritos, congas, casulos, vulvas, fumo. / Um altar em constante mutação, que conforme é explorado e alterado, faz o público ver, ouvir, sentir novas coisas. Embrenhando em cada peça presente através de um fumo estranhamente estático, sentindo o chão a tremer.
RITA MATOS [2025.06.20] _ A instalação confere um novo sentido à expressão ‘natureza morta’. A partir de vagens que já deram sementes, ou frutos, ou então que morreram e caíram improdutivas, a instalação concede uma segunda vida e um novo sentido a estas naturezas ditas ‘mortas’. / A posição aberta das vagens denota uma sensualidade e erotismo apesar da aridez dos elementos secos. / Faz-me pensar numa ode à fertilidade e simultaneamente ao fim das coisas e à memória que os objetos podem conter em si.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “A soma de tudo” / Tudo ao mesmo tempo agora. / Metodicamente ajustados / Alinhado para a mostra / Cuidadosamente montados / Em um conjunto de distintos.
C4 / FURTO
madrinha ISABEL RUTH
ISABEL RUTH [2025.06.21] _ madrinha C4 | SÓFIRO O BICHO VOADOR _ Eu reconheci-o. Agora Ali enjaulado, sôfrego, sem penas parece-me mais um tronco ressequido, um sobrevivente de um fogo catastrófico e irremediável. Debruçado sobre um frasco vazio, sem água, parece desesperado, mas mesmo sem alma ele existe e faz-me pensar na morte, na não existência, sei lá!! Afinal toda esta visão não é senão um pretexto para teimar que a natureza morta afinal tem vida! / Quem sou eu para te julgar meu pássaro vadio, esquivo, repelente, agora aí enclausurado. / És a minha morte / O meu esqueleto/ E tenho vontade / De me despedir, / Mandar-te que sai(a)s do armário! / Que saias da minha frente! // P.S. Pássaro amigo, desculpa. Eras fluido sabes? Eras lindo. Não te importes, afinal vamos todos acabar no buraco negro.
MARIA JOÃO SOARES [2025.06.18] _ Como homenagear os animais que viveram connosco, que partilharam o nosso dia-a-dia? / Tenho saudades daqueles que já não vivem comigo.
MATILDE TEIXEIRA [2025.06.19] _ Um corpo feito de corpo. A sua sobrevivência depende da permanência existencial do arco-íris que é feito de uma só cor. É monocromático e depende do imaginar de outras cores. Das restantes cores incolores, que só existem no olhar do corpo. Do copo. Do copo que é o corpo. O prolongamento do corpo que só vê o copo. Do copo que só sobrevive com a permanência do olhar do corpo. No fundo, o corpo só sobreviverá na possibilidade da existência de cor. O seu pensamento terá de ser colorido. Um comprimido por dia para uma não-intoxicação. O vidro como embalagem que protege esse comprimido frágil que se veste todos os dias de alguém. Que pertence a uma unidade e que só existe entre paradoxos atmosféricos e que não nasce para ser visto. Gosta de morrer. Gosta que o registem e que o esqueçam logo a seguir. O círculo é uma forma perfeita e como o arco-íris sabe que a perfeição não existe, nasce sempre em meio-círculo. Nasce em meio-círculo para caber na boca. Para o comprimido pousar na língua e que essa água utilizada para o empurrar, se esqueça que alguma vez foi incolor e que ceda à tentação de se envernizar. Na raiz desse arco-íris existem, para o relembrar, um coração e um cérebro que, apesar de não se tocarem, sentem tesão um pelo outro. Tudo é possível no clima atmosférico propício à tentação e à promiscuidade. No entanto, esse clima está pendurado por uma mola a secar. E encontrará sempre forma de se humedecer, já que só existe entre o sol e a chuva. Pedirá ao corpo que procura cor essa água incolor. A esse corpo que é impulsionado pela cadeira de baloiço e que morrerá pelo gesto repetitivo do tomar o comprimido diário, que está dentro da embalagem de vidro e que não se quer partir. Não quer mostrar fragilidade. Será, pelo menos, uma morte forte. Incolor mas forte. Não plena mas forte. Sozinha mas forte.
MARTIN WOLFSON [2025.06.19] _ É curvo, é reto, tem forma… / É uma mixórdia de ‘desformas’ com forma. A composição ajuda na sensação. Misturamos materiais diversos, que transmitem desconhecido, apreciação, curiosidade, como que uma nova entrada para Nárnia, que no fundo também era através de um armário. / Remete também para um conto infantil, onde o tronco maior representa um dragão, o jarro de vidro, a torre e as sementes dentro destes os reféns. Cá fora temos a entrada para esta ficção. Um arco que abre portas a um novo mundo, um mundo fictício. No canto inferior direito estamos nós, espectadores, que vemos de fora mas com a cabeça entramos no cenário.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “O refresco da águia” / Bebe / Desfruta sob o arco da aurora / Sacia a vontade / Sacia à vontade. [+ desenho]
ROBERT FUCHS [2025.06.27] _ O dragão do vinho, toma conta do café!
ANÁLIA GOMES [2025.06.28] _ Instalação de grande elegância. Uma raiz sugerindo a cabeça de uma ave? Não consigo descortinar o que representa o recipiente de vidro contendo ovos (?). / O conjunto sugere-me uma passarola pelo arco enquadrando os restantes elementos. / P.S. Esta foi a mais, já que ainda me restava uma folha.
LIA FREITAS [2025.06.28] _ “O rinoceronte do monte” / Arcos e flechas / trespassou este mamífero / Esquivou-se de emboscadas / e esgueirou-se pelas estradas. // Noite certa / Algumas bolotas / brotaram do solo / e ganharam luz // Nasceu o cabelo da Aurora / Crespo, entrançado, loiro // Os crocodilos do Rio Verde / esperavam-no. / O rinoceronte do monte / andava a monte. // A Aurora tinha medo / não tinha mais coragem / do que outrora. // Mergulhou no rio. / Ficaram os cabelos / As bolotas brotaram. / O sol pôs-se por entre / a flecha e o arco. // Deixá-lo ir que já se / faz tarde.
MARIANA FALQUEIRO [2025.06.28] _ A dignidade / da pombinha / que bebe / Dry Martini. [+ desenho]
C5 / IGUALDADE
madrinha LUÍSA BRANDÃO
LUÍSA BRANDÃO [2025.06.20] _ madrinha C5 | DA NATUREZA _ Mão divina, e as forças telúricas do caos.
OZGE TOPÇU [2025.06.11] _ Corals under the water, but they are not alive corals, they are fossils now. And they are connected to the shipwrecks, some piece of metals left over of another ship which was sink after a long and strong storm.
ANDREIA LIMA [2025.06.18] _ Voltar à Karnart é sempre maravilhoso. Poder ter responsabilidade com algo simples ou deveres complexos e por vezes (…), em vários sentidos diz-se… / Hoje, 18 de Junho, senti-me esmagada ao ver o armário e todas estas instalações, um Perfinst contemplativo como referiu L.C. Fui tendo um perfinst com algo, naturalmente, belo e composto, onde instalações e performance se mesclavam, se fundiam como se (es)tivéssemos a elaborar uma liga com diversos metais preciosos. Teatral evidentemente, porém desta vez encontrei-me com algo distinto, pelo menos a meu ver. Instalações sim, mas performance não. Contudo, é como se tivesse em presença de uma performance a que não assisti. Imaginei como L.C. imaginou, ensaiou, selecionou, perspectivou a criação de cada compartimento deste fabuloso armário que tanto AR e MAR tem. Quais terão sido os gestos, as tentativas, os erros, o voltar a tentar, todo o tempo que investiu para nos apresentar, a nós, espectadores participantes activos, o armário? / Uma coisa é olhar para cada compartimento, outra para segmentos, outra para todo o seu ser robusto e outra, ainda, olhar, ver e senti-lo na Karnart. / Como um palimpsesto a que nós nunca iremos ter total acesso, fez-me recordar da minha arqueologia, tal como o armário tem também ar nela, tem tanta coisa como este armário. / Sinto que me dispersei do C5, mas foi inevitável perante ele, o Armário, esse grande e centenário guardião. / Escolhi-te não sei bem porquê, mas quando te vi lembrei-me do equilíbrio sempre necessário e que vejo estar em nós, pelo menos em mim, essa busca constante de equilíbrio. / Era como se fosses uma beleza, daquelas antigas, metálicas, pesadas, com grandes portas. Um eixo que buscava que dois se mantivessem unidos, conectados, que respirassem e fossem uma só e única natureza, mas como é isso possível? Não! Não! Apenas uma ilusão, ninguém pode estar só, isolado, ninguém é uma ilha, nem mesmo estes dois imponentes e singulares elementos vegetalistas. Observem bem, de um brotar outro caminho já, estava pois em transformação. E as raízes observavam, indicavam tudo. Quantas vezes somos nós raízes dos outros e de nós mesmos? Quem nos dá semelhante direito? / O caminho, como outros, é conturbado, serpenteante, sinuoso, selvagem e silvestre quiçá, mas o que importa é não ter medo, como o inesquecível M. Cesariny dizia. E medo, esse senhor não tem ar, tem apenas freios, usemos pois o medo para criar e afogar o desconhecido. / Maravilhosa viagem sensorial, obrigada L.C.
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Bailado entre duas árvores com efeitos ondulantes belíssimos.
GAELLE ISTANBUL [2025.06.20] _ A morte ficou lá fora / agarrada aos telhados / a rebate da ironia // Aqui dentro existe / a ponte entre dois / seres / Um ramo pousado / entre ramos e raízes / numa floresta de / pinguins // Somos feitos de curvas e / de seios / de sombras incididas /sobre cromeleques
INÊS MARTINS [2025.06.20] _ Um pássaro sem asas que contempla o topo / das árvores de onde veio ou se calhar para onde / queria ir. As árvores estão secas. Mas unidas. Unidas por um bocado do que um dia foi uma árvore. // As raízes mostram que um dia foi vida. Mas ainda é. / ou o pássaro não quereria para lá voar.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ Equilíbrio / Uma ponte que paira / Uma travessia / Um abismo / Ligado, unido / Dois lados / Duas margens. [+ desenho]
MARIA JOÃO RIBEIRO [2025.06.26] _ De alguma forma, este armário é o inverso dos C1 e C6. Parte de elementos aleatórios da natureza para uma construção objetiva. A natureza está lá mas ela não constrói assim. Uma trave direita paralela ao chão é a mão do homem dominador. Uma construção improvável.
REGINA BRANCO [2025.06.27] _ No tempo em que sonhávamos, éramos dois e dávamos as mãos. / Aquela árvore onde fixei a minha infância mingou e eu cresci. Na minha geografia, passou de mancha a ponto, e quando passo por ela pergunto-me sempre se assim foi. / Emergia da noite e trazia todas as crenças e lendas com ela, a minha vizinha. Comia connosco, bebia com os crescidos desembaraçava-se das estórias que tinha recolhido no caminho da mata e dávamos as boas noites agasalhados de medo.
FRANCISCO CASTRO [2025.06.27] _ Além do fio de Linho que tece a vida, esta é também feita de pontes entre as árvores que temos, com que crescemos e que nos vão suportando. / É assim a vida, somos assim na vida. Mas é também assim a arte: Esta é mais a ponte que vai unindo as nossas árvores, ajudando a formá-las num “Uno” com sentido próprio. / E na vida como na arte, os espinhos existem, crescem e nós vemo-los. Mas também na vida como na arte, que estejam do lado de fora. E os que entraram nesta estrutura feita de árvores e pontes, que as raízes sejam fortes e grandes o suficiente para que a sua dor não se sinta, ou que seja atenuada.
ISABEL FREIRE [2025.06.27] _ Esta pintura-pântano, nesta pintura-pântano as águas pararam, sumiram, no dia em que um animal com coração foi despedaçado por outro animal com coração. A pintura-pântano nunca mais se recuperou do susto, da perda, daquela dor de ambos, quem foi despedaçado, quem despedaçou. Pobre pintura-pântano chorosa até hoje. A imagem daqueles dois corações engalfinhados fez as árvores secarem, o solo gretar, as farpas da urze crescerem, e tomarem conta do lugar.
PEDRO SANTANA [2025.06.28] _ Deus Ex Maquina /// Durante muito tempo se sonhou com uma ligação mais rápida, mais eficaz. Uma ponte. Alguma forma de nos podermos encontrar sem ter de fazer o imenso caminho que através do vale unia as nossas aldeias; fisicamente, quer-se dizer. Pois a distância entre nós, a verdadeira, era tão curta que todos os dias nos falávamos. Alto, bem se diga, felizmente a distância não era tão curta que não pudéssemos falar uns com os outros coisas que não quiséssemos que os da outra aldeia ouvissem… imagino que eles fizessem o mesmo. / Só para se decidir que tipo de ligação se iria construir entre os dois cumes foram imensos tempos. Quem iria construir, quem forneceria o material, quem daria o primeiro passo na construção… Num ponto estávamos de acordo; uma ligação física diária iria melhorar-nos a todos. Iria produzir mais fortuna, trazer mais prosperidade, gerar mais alegria; nos incontáveis tempos discutimos e nunca concluímos nada. / A simples acção de se fazer uma reunião de trabalhos entre as duas partes era só por si uma complicação. Na minha ou na tua? No vale, a meio do caminho? Quem leva a comida? E a bebida? E tudo isto a falar, alto, do topo de uma montanha para o topo da outra. Finalmente, quando se acordava o local e o momento de uma reunião, ela durava um instante pois era altura de alguém, ou ambos, voltar para trás. / Durante muito tempo se sonhou, se falou, se projetou… durante muito tempo… até que um dia o grande carvalho que sombreava o cume de uma das montanhas caiu, provavelmente cansado de assistir a toda esta perpétua inoperância, direitinho ao cume da montanha vizinha. E a ponte passou a existir. A paz, a fraternidade e a partilha, não sei se chegaram a existir. Pensou-se em cortar o carvalho mas fizemos fronteiras e continuámos vizinhos.
LIA FREITAS [2025.06.28] _ “O ar que respiro” / Tenho em mim a força / de mil homens / a resiliência de mil árvores / Sou aquilo que inspiro // Tenho em mim / os espinhos de todas as rosas / que cheiro / Sou aquilo que expiro. // Tenho em mim / junto do hipotálamo / a vontade de ser / o que nunca fui / Sou aquilo que inspiro // Tenho em mim / a história de dois alvéolos / que secaram sem se deixar ver / Sou aquilo que expiro. // Tenho em mim / dois brotos de vida, / um para ser, / outro para estar. / Sou aquilo que inspiro. // Tenho em mim / tudo o que sinto, o que ainda não vi / e o que já respirei. // Serei sempre o ar / que me falta respirar. Inspira, expira.
C6 / VOO
madrinhas OLGA RORIZ, BIBI PERESTRELO
dama de honra ANA MAGALHÃES
OLGA RORIZ [2025.06.04] _ madrinha C6 | A SUSPENSÃO DO MEMBRO _ O falo feito momento / Suspensão, pousado, discreto / Erecto na sua dimensão de tempo, não de sexo. / Quente, envolto, envolvente… / A vaidade de ser simplesmente belo. / Retorcidamente belo. / Quase divino.
BIBI PERESTRELO [2025.06.06] _ madrinha C6 | O BAILARINO [ou “O BAILARINO DO EVEREST”] _ Diz-se, quem o viu dançar, que quase voava. “Eu voo, e hei-de ultrapassar o Everest.” / Fez treinos intensos. Ultrapassou montes imensos. Lá estava a maior montanha à espera do maior bailarino. / Lançou-se e nunca mais ninguém o viu. Um pequeno galho prendeu-se-lhe no peito. / Mais tarde encontraram-no. Reconheceram-no pela perna arqueada e pelos braços a parecerem asas: / – Um homem a parecer madeira empedernida travado por um pequeno galho.
ANA MAGALHÃES [2025.06.14] _ dama de honra C6 | Pareces-me um náufrago. Restos. Destroços. Madeira naufragada. Pese embora o senso comum, tudo isso me entusiasma, pois olho para ti e vejo caminho, trânsito, mudança, devir. O que terás sido antes? Um utensílio cuidadosamente burilado por mãos humanas? Partes de uma árvore que caíram no chão empurradas pela bela tempestade (todas as tempestades são belas)? Alguma vez foste tornado por uma máquina, fria, majestosa e bem-educada? Agora estás aqui, e daquele lado fazes lembrar-me algumas pinturas do Dalí, aquelas com as muletas, as mais anódinas, que não são muito populares e não são pouco populares. Talvez seja o que menos gosto em ti. Mas gosto muito de ti. Do tempo todo que passou por ti. E do tempo todo que aí vem.
JOSÉ MENDES [2025.06.05] _ Oh! Sapo voador / Leva-me o manguito aos / Senhores dos pilares Altos, / subam, subam, sumiço pelo céu / e deixem, apenas o Pequeno Ponto / Azul / Simplesmente / como era…
MARIA JOÃO DE OLIVEIRA [2025.06.05] _ Um ser que não se decide se é marítimo ou terrestre / Se tem poder de decisão ou não. Tem um movimento elegante talvez porque é a única decisão que pode tomar / Não sei onde vai, não faz mal. Deixo-me ganhar pela poesia do gesto.
JULIEN PAGNAC [2025.06.13] _ A reptile, the former human form, is going on like lifetime does. / It shows things are always in a consistent move. / Nothing remains unchanged. / It (the movement) illustrates the need of going further. / Nature, human and all the elements move no matter what happens. / Even if the leg seems missing, the reptile shape form moves. / That’s the treasure of life I’d say. / It’s better late than never.
JORGE MARTINS ROSA [2025.06.14] _ O cão quer imitar o seu dono. Flectiu os joelhos. Esticou uma das pernas. Pôs os braços bem esticados atrás das costas. Olhou fixamente em frente. Assim permaneceu até o dono chegar. Desconhece-se se o dono chegou.
MARCIAL COUTINHO [2025.06.18] _ Hominídeo a nadar à tona da água.
MARTIN WOLFSON [2025.06.19] _ Esta instalação é algo curiosa. Parece que mistura algo de dois mundos. Remete para um deserto, para uma paisagem seca e inabitável. Dentro deste cenário há algo que se passa. Ao mesmo tempo que parece uma carcaça de um animal, já deixada a apodrecer, esquecida, após um bom churrasco de uma cambada de malucos que para lá foi, remete também para uma arma, daquelas grandes e pesadas, tipo ‘sniper’, que precisa de um suporte para o cano. Parece uma cena de crime ou um lugar estratégico onde foi deixado um corpo a apodrecer. / Curioso que só me remete para vestígios de violência e crime, se calhar ando a ver filmes a mais.
CASSIO DE LUCENA [2025.06.25] _ “O salto do jacaré” / Num ballet ímpar / Apoia-se sobre o joelho / Estica a perna / Dança / Em um passo único / Nunca dantes visto. [+ desenho]
FILIPA OLIVEIRA [2025.06.26] _ Havia um tempo em que não havia distinção entre espécies, raças, entre seres vivos e outros seres. / Havia um tempo no qual a palavra comunidade significava pôr em comum tudo o que não era comum, tudo o que não era igual. / Havia um tempo no qual a palavra diferença não existia, nem a palavra estranho ou esquisito. / Esquisito tinha só o significado espanhol ou inglês de exquisite, fora de série. / Foi nesse tempo do in(comum) que vivia o pagem-bailarino cabeça de crocodilo, tronco de nogueira, braços serpente, e perna de pescoço de girafa (a mesma perna que mais tarde veio a ser comum nos saci-pereré da roça da Dona Benta). / Este ser com um nome que não sei pronunciar e que não posso escrever, porque escrever e dizer o seu nome seria classificá-lo, encaixá-lo numa definição a que ele escapa. Já dizer ele é assumir uma categorização que o prende, mas por facilidade deste relato falarei em ele. / Ele, o pagem-bailarino-crocodilo-serpente-nogueira-girafa. Ele procurava seriamente uma forma de dança onde se pudesse transformar em seta. Numa concentração profunda, ele encostava o peito nogueira a uma fisga e ensaiava movimentos das suas pernas-pescoço para conseguir essa flecha encorpada. Rodava as ancas, arqueava as pernas e cansava-se em voo. A sua cara-focinho fitava o horizonte. Cerrava os dentes, esticava as mãos e ficava assim, horas. / Esvaziava-se de pensamentos, de órgãos, de fluidos e ficava pele, casca, ouco. / Um corpo em voo, parado no meio desse voo, suspenso no ar, no espaço, e no tempo. / Havia um tempo em que o crocodilo-nogueira-serpente-girafa voou, um tempo em que virou fóssil, petrificado pelo olhar da medusa. / Um tempo parado, passado, guardado numa vitrine de um armário.
ISABEL FREIRE [2025.06.27] _ Era um dia na infância. Um daqueles que nunca será lembrado. A criança tinha pernas robustas, não sabíamos que género de criança era. Uma criança sem género. Pernas robustas, pés chatos, braços nus, testa suada, vontade no corpo, sempre correndo no planalto daquele lugar, que um dia será recordado como o lugar mais belo da sua vida, suspenso no vento que sibila nas árvores, entroncado nas eras que trepam estações, florescente nas nuvens que atravessam os céus. A criança, o lugar, a memória. Eu chamaria a este lugar-memória-Criança um quadro de amor.
ROBERT FUCHS [2025.06.27] _ Aligator dançante!
ANÁLIA GOMES [2025.06.28] _ Destaco também a última instalação, na prateleira de baixo à direita. / Um tronco de rara beleza sugerindo um atleta de alta competição, nadador? Talvez sim talvez não… Por outro lado, a parte dianteira sugere não uma cabeça de humano, mas o focinho de um animal. Em todo o caso, parece estar em esforço, suportado por uma simples forca, o que na minha infância servia para fazer uma atiradeira. Nunca brinquei com uma atiradeira, era coisa de rapazes, mas recordo a forma do galho de oliveira que servia para fazer as delícias da rapaziada. / Nota: Todo o conjunto é extremamente belo e sugestivo.
financiamento
Ministério da Cultura / DGArtes
Câmara Municipal de Lisboa
apoio
Antena 2
agradecimentos
Gisela Cañamero, Gonçalo Boavida Conceição, Licínia Ferreira, Martin Wolfson


